O Papel dos Mestres


Peguei esse título emprestado do livro “ Caminhos no mundo da cozinha, escrito pelo Chef Laurent Suaudeau “, para a série: Cartas a um jovem chef. Percebi uma atitude muita digna e educada do meu sogro, que dedicou um capítulo inteiro do seu livro para falar dos seus Mestres. Não somente para agradecê-los, mas, principalmente para contar o que ele absorveu e as experiências que vivenciou com cada um deles. Esses ensinamentos, aliados a sua dedicação e dom natural, o ajudaram a se tornar o profissional de sucesso, reconhecido no Brasil e no Mundo,
considerado uma referência no seu ramo de atuação e também Mestre de outros tantos que já trabalharam e trabalham com ele.

O Papel do Mestre é o nome do terceiro capítulo desse livro que pode ser lido tanto pelas pessoas que curtem a alta gastronomia como também liderança.

Antes mesmo de terminá-lo, eu parei e, em questão de poucos minutos, os meus ex-chefes passaram com suas fisionomias, vozes, estilos, olhares, enfim, de tudo um pouco que eu guardei como lembrança de cada um na minha mente.

Nossa ! Além do muito, mas muito que aprendi para uso no meu personagem profissional e também para uso no meu personagem de vida pessoal, tenho infinitas passagens engraçadas e emblemáticas.

Nessa parada, onde os nomes de todos vieram à minha mente, eu logo em seguida peguei uma caneta e papel e escrevi os nomes dos meus Mestres:

Izaltino Luciano dos Santos
Augusto Thadeu Nogueira Florenzano
Carlos Alberto Sanche
Luis Roberto Bacelette
Eduardo Camargo
Gualter Leal Ferreira Junior
José Francisco Nunes
José Carlos Mascarenhas Grise
Alexandre Oliveira
César Emilio Dias Marinho
Eduardo José Bandeira de Melo Jóia
Américo Mello da Silva
Wilson Issamu Harada
Carlos Henrique Safini
Álvaro Marques
Nilo Rogério Barros
Sergio Martins
Egle Menezes
Alexandre Baltar
Dario José Noronha

Da turma lá de cima do Continente:

Rich Mueller
Steve Poupos
Walter Bona
David González
Robert Handall

Tenho bastante convicção de que não esqueci de nenhum, porém, fico aqui pensando e, se um nome for lembrado, eu volto aqui e coloco-o na lista. E peço desculpas, óbvio!

Do primeiro, me marcou a devoção dele pela IBM. De tanto ouvir suas histórias recheadas de muito orgulho, naquela pequena sala no Centro, notei que além do conhecimento técnico que eu ainda estava adquirindo na Escola Técnica, tinha muita coisa pela frente. Palavras como atitude e compromisso se misturavam com uma enorme sopa de letrinhas por dentro das histórias dele que já enriqueciam meu estágio.

Era uma sexta-feira e um deles me mandou fazer uma instalação, no final de semana, de um circuito que iria mudar de endereço e todos os técnicos seniores já tinham ido embora. Facó vai você. Chefe, mas eu nunca fiz uma instalação dessas, e não tenho toda a experiência para resolver imprevistos. Você vai assim mesmo, porque eu sei que você não tem toda essa experiência, porém vai ter atitude necessária para pedir ajuda se for o caso. A frase escrita e lida assim, não diz muita coisa certo? O diferencial foi a forma como ele me olhou, o tom firme e felizmente na segunda-feira a Agencia estava funcionando sem problemas.

Um desses senhores que eu comentei aí em cima, só gostava de usar a minha mala de ferramentas porque tinha sempre todos os equipamentos bem guardados e testados. Mas bem que ele poderia ter evitado me roubar uma paquera numa dessas viagens a trabalho…

Apesar de fazer uso intenso de notebook, palmtop, celular, smartphone e todos esses devices, até hoje vou para as reuniões com todos eles, claro, mas ainda levo um caderno para anotações. De novo, um hábito adquirido de um dos Mestres.

Desse outro aqui, conto agora duas lembranças, mas temos muitas. Foi quando ele não me deixou ir para o Citibank trabalhar com o nosso querido Caratori, que não está mais no mundo dos humanos. Eu atuava como assistente técnico e queria, por que queria e merecia, a promoção para analista de teleprocessamento. Graças a ele fiquei. Anos se passaram, nos tornamos pares, tivemos um grave embate na sala dele, mas, ainda bem que depois pedi desculpas porque me excedi.(Ele também!)

Já me sentei no chão no canto da sala de um deles e me calei, porque não encontrava uma solução para um problema ou projeto que estávamos discutindo. Sempre quando nos encontramos, lembramos dessa cena.

Falo e divulgo o MU. Divulgo porque falo com tanta naturalidade que as pessoas, aquelas que não se envergonham, me perguntam o que é MU. Apenas digo que aprendi com um ex-chefe que MU é uma expressão oriental quando algo não acontece.

Esse que me ensinou o MU, me chamou uma sexta-feira na sala dele e me disse que havia sido demitido. Surtei ! Nunca havia passado por um momento como esse.
Esse dia deve ter sido muito sofrido para ele e, eu sofri por ele. Porém, filei o último cigarro dele e, aos 27 anos eu fumei meu último cigarro e disse, do nada, que nunca mais iria fumar. E, de fato, nunca mais fumei.

Um deles me chamou na sala porque soube que um documento com conteúdo não profissional foi endereçado a mim por uma colega. Preparei-me para ser demitido ou receber uma carta de advertência. Errei e, ainda bem. Recebi uma aula de compreensão, uma aula de toques e cuidados, tudo isso com bom humor e muita serenidade.

Outro, para falar a verdade não foi um chefe formal, porque as Empresas estavam se paquerando, ainda naquele vai, não vai, mas ele sabe que eu o adotei durante meu período mais zen no Rio de Janeiro. Dessa época comecei a tomar gosto por coordenação, interação com as pessoas e lampejos de liderança. Até porque, foi ele que pediu para eu ficar por ali uns quatro meses, prazo imaginado para a gente juntar aqueles redes. Fiquei um ano e quatro meses.

O interesse despertado pela coordenação foi percebido por outro Chefe, que também foi pupilo desse anterior. Esse, definitivamente me tirou da área técnica e me levou para gerenciar projetos.

Hoje lembrei bastante de um deles, pois foi o primeiro a me aconselhar a fazer uma faculdade. Lembrei porque passei no primeiro semestre da faculdade que resolvi fazer agora.

Como eu já confessei para ele, vou escrever aqui. Cheguei a pedir para não me reportar direto porque não me sentia à altura do cargo que estava. Ele até concordou e me tirou debaixo dele, mas me manteve no cargo e, hoje, essa passagem me marcou, porque terminei com ele os degraus da carreira técnica e pulei para a carreira executiva.

Era uma reunião num parceiro. Hoje eu não me reconheço em relação à forma que me comportei nessa tal reunião. Prefiro lembrar da paciência e serenidade que ele teve comigo nesse dia. Eu poderia ter me permitido uma “bela queimada” na minha carreira. Ganhei uma encostada estratégica e pude dar a volta por cima.

De outro, guardo uma metáfora que usou na sala dele comigo e, quando saí de lá fui tratar com minha psicoterapeuta e depois cursos de programação de neurolinguística:
Facó, no dia-a-dia, você sempre está alerta e atuando pró – ativamente nos problemas e nas melhorias; porém, quando outras áreas e pessoas estão envolvidas, você consegue visualizar o problema e, melhor, tem a experiência e conhecimento para contribuir na solução, mas, a forma contundente como você se comunica, parece que está jogando uma pedra que bate num espelho e quebra as conexões pessoais. Quebrar as conexões, não adianta nada para o seu conhecimento. Pense nisso e faça suas escolhas.

Minha primeira designação gerencial!
Tinha que ser com um Ser diferente desses todos.
Teve bastante paciência e me mostrou a importância de processos bem definidos e da incessante busca por reduções de custo. Dessa experiência colhi muitos frutos três anos depois.

No livro do Laurent, ele conta a mudança de Paris para o Rio de Janeiro. Aqui eu conto a mudança de Botafogo para o Brooklin. Aquele projeto iria transformar aquela empresa, iria terminar aquele vai-não-vai, mas, eu era o único que iria ficar em Botafogo. Estava morando sozinho, apaixonado e feliz porque iria participar daquele projeto. Essa definição perdurou por três meses. Uma semana antes de o projeto começar ele me liga numa sexta e diz: Você precisa estar preparado para uma entrevista na segunda-feira, porque você vai morar em São Paulo. Fiquei sem palavras, dores de estomago por todo o sábado e domingo. Acabou o Fantástico, eu liguei pra ele e me concentrei na seguinte frase: Cara se você está na dúvida, guarda ela para você, vai à entrevista, diga sua enorme vontade de estar no Projeto, não diga nada sobre mudar de Cidades e venha. Estando aqui (ele estava em São Paulo) você vai poder saber como é. Sabendo como é, você poderá escolher e comparar. Feito isso, poderá decidir se fica ou se volta.Fui à entrevista e lá se vão 15 anos de São Paulo.

Ainda bem que foi em Florianópolis, degustando ostras e tomando um vinho. Nesse dia ele me elogiou e disse que eu cumpri o que prometi numa reunião quando estava sendo sondado para uma posição de diretoria. Trabalhamos por muitos anos e foi um que sempre exigiu e exigiu. Nunca me deixou na zona de conforto.

Já foi uma delícia escrever essas lembranças e, com certeza outras virão.

Vocês aí de cima, seja por vontade própria ou porque “seu chefe mandou”, tivemos as nossas passagens juntos. Por tudo isso, quero dizer o meu MUITO OBRIGADO por tudo que eu consegui aprender dessa convivência.

Espero que Khym e Chyara possam encontrar pessoas como vocês em seus caminhos e, melhor ainda, que consigam também absorver o que cada um tem de melhor. Eu consegui!

Abraços, Fabiano Facó

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9 Comentários

  1. Ciana Lago said,

    22/07/2007 às 21:58

    Lindo texto, Fabiano!
    Me vejo numa situação semelhante a sua na passagem sobre a mudança botafogo-brooklin.
    beijo grande e continue escrevendo!

  2. Gregory said,

    26/07/2007 às 02:16

    Caramba, como vc conseguiu lembrar do nome de Todos??? Sera que um mestre marca tanto assim?
    E essa historia de vc ter sentado no canto da sala?? Conta essa!
    Abraco!

  3. 08/08/2007 às 18:41

    Querido FF,
    me emocionei com esse seu texto tão sensível. Não conhecia sua verve literária 🙂 Coincidentemente conheço alguns de seus chefes, e me lembrei dos meus queridos chefes, alguns você tb conhece: Sergio Ganimi, Marcio Muniz e tantos outros feras humanas… Tive e tenho também clientes mestres, você foi um deles com certeza, e agradeço quase todo dia pelas oportunidades que pintam no meu caminho e que me puxam a pensar e a crescer. Um beijo, tudo de melhor pra você e boa estréia no blog space.

  4. Avi Alkalay said,

    02/09/2007 às 18:51

    Oi Facó.

    Eu também tenho lá meus mestres e fiz uma homenagem a eles em http://avi.alkalay.net/2006/07/sabedoria.html

  5. Americo said,

    10/09/2007 às 17:10

    Faco, quando chegamos na reta final da vida profissional, pensamos…o que deixamos…o que valeu a pena…porque … para que… Ja tinha a desconfiança que voce acaba de confirmar, de forma bastante competente.
    SOMOS/FOMOS AQUILO QUE CONSEGUIMOS DEIXAR COM/NOS OUTROS. VEJO COISAS BOAS E ME ORGULHO…
    Grande abraço.

  6. Mauro Salerno said,

    18/09/2007 às 23:56

    Faco, muito inspirador e rico esse seu texto …me fez refletir meus mestres ..alguns reais outros …não sei ..estão por ai rondando …energia ..
    Você , sem dúvida , foi e é um dos meus mestres , e agradeço até hoje por ter cruzado o meu caminho ..tenho ( temos ) muito a aprender , a sentar no chão .
    Muito boa sorte ou quebre a perna !
    Mauro Salerno

  7. Marcos said,

    26/01/2008 às 13:44

    Oi

    Coisa engraçada essa. Eu digitei o nome do meu pai falecido no google e me veio esse texto seu. O nome do meu pai era Izaltino. Achei maneiro o q vc escreveu. Talvez a gente tenha se conhecido no passado. Creio q sim.
    Um abraço

  8. ANDRÉ LUIZ said,

    13/07/2009 às 10:49

    Ola Fabiano Facó; Uma das coisa que me chamou atenção em seu texto, é o fato de vc mencionar um amigo do CITIBANK Caratori (José Luis Caratori). Por acaso esse seu amigo era meu primo, um cara que admirava muito e que teve muita influencia na minha vida, sempre tive ele como referencia e exemplo de pessoa batalhadora e vencedora, pena que nunca pude falar isso pessoalmente,e qdo partiu não tive oportunidade de me despedir. SDÇs

  9. ANDERSON AMORIM said,

    05/09/2010 às 11:24

    PESQUIZANDO NOMES DE MEUS FAMILIARES, VEJO QUE VOCÊ CITOU : IZALTINO LUCIANO DOS SANTOS. ELE ERA MEU TIO, IRMÃO MAIS VELHO DE MEU PAI. ACREDITO QUE ELE TENHA DESPERTADO EM VOCÊ E OUTROS INDIVÍDUOS DA FAMÍLIA O GOSTO E A DEDICAÇÃO NA CARREIRA DE TI. SOMOS UMA FAMÍLIA NUMEROSA, MAS DE PRONTO CONFIRMO QUE ALÉM DELE, OENES LUCIANO DA SILVA (MEU PAI) E JAMÍRIO JOSÉ DOS SANTOS (MEU TIO) TAMBÉM CONSTRUIRAM SEUS NOMES NA ÁREA. JAMÍRIO ESTEVE AO LONGO DE ANOS DENTRO DA IBM TAMBÉM.
    SE VOCÊ TIVER ALGUM INTERESSE EM FAZER CONTATO, HÁ MEU EMAIL CORPORTATIVO A DISPOSIÇÃO.
    ABRAÇOS!


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